ZEITGEIST | O Ocidente se liquefez, e agora?

Decadência, de MICHEL ONFRAY, é um livro nem otimista nem pessimista, mas trágico. Porèm, neste momento não é questão de rir ou chorar, mas de entender.

Michel Onfray descobriu, um sèculo depois de Spengler (The Decline of the West or The Downfall of the Occident, de 1918) que o homem ocidental, com a sua Civilização Judeu Cristà, está para terminar. Dois anos atrás, foi Michel Houellebecq com sua novela "Soumission" para imaginar uma França governada pela Irmandade Muçulmana, descrevendo a dócil submissão das elites progressistas prontas para se adaptar ao novo regime jurídico inspirado nos preceitos da lei corânica. A novela surgiu simultaneamente com o massacre na redação do semanário satírico Charlie Hebdo gerando reações conflitantes. Há anos, a mesma agitação fez com que Éric Zemmour, judeu de origem argelina e colunista de Le Figaro publicasse seu "Le suicide français", uma acusação contra as revoluções de 68 e seus produtos ideológicos, que teria castrado a França privando homens de sua virilidade e condenando o país à islamização.

Mas, para quem estuda tendências sócio-culturais, quais sào os sintomas que podem nos dar o ponto da situação real desta afirmação? Segundo o autor, “o fato de que sào aprovadas diariamente leis anticristàs, sem que a Igreja possa fazer alguma coisa para impedir: falamos de contracepção, aborto, divórcio, casamento gay, procriação assistida para casais gays ou a maternidade alugada que è o estado sucessivo. Depois, assistimos à crise das vocações religiosas e o fato de que os sacerdotes de hoje se preocupem muito mais com a imanência (conceito filosófico e metafísico que designa o caráter daquilo que tem em si o próprio princípio e fim) do que com a transcendência (a um nível espiritual ou filosófico, está relacionada com aquilo que está mais além do mundo natural.). O Papa Francesco de fato prefere a celebração da globalização, o ecumenismo com o Islã e a abolição das fronteiras mais do que questões dogmáticas, ambito no qual era a preocupação principal de Benedetto XVI o qual, como vimos, nào se demitiu por acaso”.

Se observarmos sò este àmbito, do Concilio Vaticano II atè agora, o catolicismo tornou-se muito mais flexível e popular, e a pròpria moral cristà não è mais atraente em um mundo onde se reivindicam a post-truth (condição de que, em uma discussão sobre um fato ou uma notícia, a verdade é considerada uma questão de importância secundária) e o post-human (neologismo criado para definir uma corrente de pensamento que se refere a diferentes áreas do conhecimento, como filosofia, ciência da computação e particularmente biotecnologias que são concebidas como capazes de transformar física e mentalmente o homem em algo novo, um ser híbrido, humano e não humano), como objetivos incontestáveis para se esforçar a alcançar a toda velocidade!

E os sintomas na Arte?

Nestes tempos de politicamente correto, è complicado sermos críticos com a arte contemporânea, mas entre as evidências contra nossa civilização podemos citar a "Merda d'artista" de Piero Manzoni. Por quê? O autor defende a “arte contemporânea, absolutamente. Mas eu faço isso um sinal da era em que se manifesta. A civilização cristã só poderia existir com a arte que estava a seu serviço: a arte é o veículo da ideologia que torna a civilização possível. Quando o cristianismo colapsa, a arte colapsa com ele. Ou pelo menos, expressa outra coisa: não é mais a grandeza do cristianismo, mas é um desperdício. Então, quando Manzoni propõe a Merda d'artista e isso se torna uma obra de arte emblemática, torna-se assim porque expressa a época em sua essência”.

Neste livro grande importância è dada a Samuel Huntington, o sociólogo americano que escreveu o famoso e polêmico livro “Clash of Civilization” em 1997. Há vinte anos, em resumo, ele argumentava que a principal fonte de conflitos no mundo pós-guerra fria se tornariam as identidades culturais e religiosas. A teoria foi originalmente formulada em um artigo de 1993 em resposta ao livro The End of History and the Last Man, publicado em 1992 por seu estudante Francis Fukuyama.

 

Onfray lembra que neste estudo ele jà havia diagnosticado tudo aquilo que estamos assistindo hoje: o fim dos estados que já não controlam dinheiro, idéias, tecnologia, circulação de idéias e pessoas; o declínio da autoridade dos governos; a explosão e o desaparecimento de certos estados; a intensificação de conflitos tribais, étnicos e religiosos; o surgimento de mafias criminais internacionais; a circulação planetária de dezenas de milhões de refugiados; a proliferação de armamentos; a expansão do terrorismo; limpeza étnica; o paradigma político substituído pelo paradigma caótico.

Acertou em cheio heim? Como repito sempre, às vezes, para sabermos do futuro basta pouco, è necessário lermos bons livros, escritos por autores que sabem porque pesquisam profundamente sobre o que estão falando.

Mas Onfray continua, nos lembrando que a nossa sociedade, nascida do que chamarei respeitosamente, de uma “fiction” cristã aliada ao poder romano, è destinada a perder a partida cm o Islã "religião viril, guerreira, conquistadora, poderosa, com soldados fortes prontos para morrer por ela” como vemos quase diariamente nos noticiários da tv.  Aqui Islã e Cristianismo para ele são duas forças, duas espiritualidades, duas culturas, duas civilizações que se opõem. Principalmente quando a nossa sociedade está doente, literalmente, com seu niilismo, onde tudo vale tudo, nada vale nada, o egocentrismo è o modus vivendi e onde somos dominados por paixões tristes, como por exemplo, o novo iPhone. O Ocidente, na sua parte negativa, è cheia de negatividade e preguiça.

Onfray não acredita nas teses apresentadas por Kojève ou Fukuyama sobre o final da história. Para ele a história continua a se mover, mesmo que em um plano inclinado de crise e decadência. Todo movimento de civilizações é a destruição de algo que veio antes. O cristianismo, guiado não pelo manso Cristo dos Evangelhos, mas pela teologia política armada de Paulo de Tarso, destrói o politeísmo pagão e atinge seu apogeu inventando o conceito de "guerra justa" e "malícia": quando se mata, não se mata homens que são inimigos para nós, mas o mal em si mesmo.

Em um certo ponto, explica ele, o Iluminismo, a Revolução Francesa, a revolução bolchevique e o 68 de maio continuam o trabalho de decristianização do Ocidente, que segundo Onfray, o Concílio Vaticano II não combate, mas favorece desconstruindo o sagrado e levando o transcendente para a Terra, como por exemplo, com a nova liturgia da missa…

Neste cenário o nazismo e o fascismo aparecem como uma reação cristã ao comunismo ateísta. Afinal, o totalitarismo do século XX teria sido muito semelhante entre eles, não fosse este discriminador religioso decisivo. O próprio Hitler não é um pagão como Rosenberg, o autor do mito do século 20, e seu Mein Kampf nunca foi, acreditem se quiserem, colocado no Índice pela Igreja!

 

Acrescento aqui como curiosidade, que nem as obras de Mussolini, Lenin, Stalin. A este respeito, corre a voz que a Igreja tentou - sim - lutar contra ideologias que se apresentavam como religiões políticas capazes de competir com o catolicismo; mas foi muito mais difícil - e perigoso - romper a concepção católica para a qual se obrigou a obedecer o poder do Estado, conforme designado por Deus… A propósito deste tema, aos #booklovers como eu, o Index Librorum Prohibitorum, nascido em 1559, recolhia a lista de livros cuja posse e leitura eram proibidos aos católicos (a origem das proibições é bem antes do estabelecimento do índice, voltando ao quarto século) e só foi abolido oficialmente em 1966 por Paulo VI - mas na realidade sobreviveu ao Concílio Vaticano II e ainda existe sob a forma de um "guia bibliográfico" do Opus Dei.

Voltando ao livro de Onfray, segundo ela a democracia liberal ganha, e com isso o Ocidente se apresenta como consumista e descristianizado. Frente a ele, como em 711, a conquista árabe da Espanha, como em 1683, com o assédio turco de Viena, aparece um islamismo que, a partir da revolução iraniana, acredita com um novo vigor em seu sonho de califato, dominação mundial. Para o resto, o Ocidente se opõe ao niilismo. E, em maio de 68, vemos nas praças os slogans contra Deus, Cristo, a transcendência, o trabalho, a pátria, a burguesia, o parlamentarismo, a propriedade, a memória, a cultura, a arte, que negam tudo sem propor nada, de modo que um desejo legítimo de igualdade logo se torne uma ditadura do igualitarismo.

Tudo o que resta é a economia e no Ocidente a palavra de ordem è "vender". E entào o livro de Onfray pára nos limiares do apocalipse. É este deserto, esse vazio, esse nada que os ocidentais se opõem a quem quer nos destruir? Convenhamos… Enfim, Decadência é um livro nem otimista nem pessimista, mas trágico, porque neste momento não é mais uma questão de rir ou chorar, mas de entender. E quem pesquisa e analisa tendências tem obrigação de passar por ele.

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