MOOD | Não ter filhos: algum problema?

A versão dualista da feminilidade onde mãe è igual a bem e mulher è igual ao mal acabou com a liberdade sexual?

Depois da enèsima news, desta vez sobre o casal de Roma que abusava sexualmente do filho de 6 anos de idade, obrigando-o não apenas a assistir as relações sexuais da mãe com outros homens mas a sofrer abusos no papel de “mulherzinha” com seu pai, e de saber, um pouco mais horrorizada (se è que è possível) da violência sexual que uma mãe de Napoli deixava sua filha sofrer pelo padrasto violento “para que ele não fosse procurar outras mulheres fora de casa” eu sò confirmo a minha antiga - e documentada - posição de que realmente o mito do amor materno è isso mesmo, um mito.

Não existe um instinto materno, temos que aceità-lo de uma vez por todas. Sejamos realistas: mães reais, não as idealizadas, ou seja, a minha e a sua - e o que seremos se assim desejarmos - podem ser anjos que cuidam ou tiranos que traumatizam, e atè um mix disto. A idealização da mãe “como um ser de amor infinito” acaba apenas por alimentar fantasmas estéreis de onipotência e, dà, às mulheres normais do nosso tempo, uma carga de angústia intensa, porque não são perfeitas como este “modelo”. E’ o momento de pararmos de “santificar” tanto a maternidade quanto aquela que “dà a luz”, trazendo ambas para o terreno da realidade além dos clichés e dos dogmas religiosos…

Oras, nem tudo são flores na maternidade e quase toda criança nasce sobre uma dor - de abortos espontâneos, de uma gravidez complicada, da experiência do parto que pode ser traumàtico, de renúncias e do sacrifício de ter que doar tempo, espaço, desejos, pensamentos e, o próprio corpo! Aceitar uma realidade diária que nos tira de nossos desejos - depois de anos de conquista feminina em território masculino - é algo que, embora possa ser enriquecedor - è cansativo sim. E’ aqui que o mito do amor materno como um sentimento perfeito dà as mulheres uma sensação de culpa e o constante questionamento sobre a sua adequação aos cânones, com os ditames que medem a autenticidade de seus sentimentos e de seu papel que, infelizmente, tem bem pouco de íntimo, mas muito de cultural.

Se formos pesquisar na profundidade, e não no programa de auditório popular e nas timelines sempre felizes de nossas redes sociais, onde todas as mães são felizes e não existe uma que quis algum dia jogar o filho pela janela porque não sabia mais o que fazer com seu choro de cólica, emerge que no estudo analítico abundam mães narcisistas que vivem (ou evitam) a maternidade como se fosse um mero obstáculo, ou filhas deste último, devastadas por mães em constante competição sutil - atravès da estética, do profissional e atè do relacionamento amoroso - com elas. A boa notícia è que, no entanto, do outro lado desta moeda existem muitas mães capazes de transmitir um legado positivo.

A ideologia patriarcal sempre reduziu a mulher ao papel de mãe, e nele somente esta figura poderia ser socialmente aceita, benéfica, positiva e geradora de feminilidade. A mulher privada - por necessidade, escolha ou problemas fisiológicos - deste papel aparecia como encarnação dos fantasmas mais tenebrosos: era malvada, pecaminosa, voltada à luxúria, ao “pecado” puro e sem medidas. Ainda existem resquicios deste pensamento paternalista na sociedade atual que quer nos fazer acreditar que a maternidade é e deve ser suficiente para satisfazer a mulher na íntegra, compensar qualquer perda, obliterar a feminilidade, cobrindo tudo isso com uma aura de santidade. Nào, nào è suficiente. Existem outras tantas riquezas a explorar na nossa individualidade!

 

Esta versão dualista da feminilidade onde mà è igual a bem e mulher è igual ao mal foi suplantada em parte apenas com o advento da liberdade sexual adquirida pelas mulheres nos últimos 50 anos mas ainda hà muito a ser feito. Por exemplo, quantas vezes nos damos conta do comportamento invasivo e anacrônico, atualíssimo ainda infelizmente, de pessoas que teimam em aceitar que amigas e conhecidas possam optar por não ter filhos, como se esta escolha fosse uma patologia negativa ou, pior, um desvio de personalidade?

De outro lado, o resultado do dualismo acima na atualidade são inéditas versões patológicas da maternidade, e uma delas è a da mãe hipermoderna que vive os filhos como um próprio handicap à própria afirmação social ou ao narcisismo do próprio corpo - quantas mulheres conhecemos que não querem amamentar, mesmo podendo, porque isso “estragará seus seios”?

 

Mas nào acaba aì. A partir do momento em que mulheres decidem gerar, existem mães que suprimem a mulher (aspecto fêmea) na versão patriarcal ou mulheres que negam a mãe (aspecto maternidade) como no tempo hipermoderno e, aqui, não são duas representações do “ser mãe” e sim duas declinações patológicas de mesmo teor. Todas as teorias psicanaliticas nos ensinam que è somente a fusão de uma e de outra, em tempos equilibrados, que pode ocasionar uma maternidade/feminilidade vivida de forma benèfica. No caso de uma mãe, è somente o comportamento de nào ser sempre e exclusivamente apenas uma mãe que vai dar ao filho a experiência simbólica de ser uma pessoa com acesso ao mundo de fato. Em resumo: as mães não devem jamais esquecer que, mesmo que tenham um filho, seu aspecto fêmea jamais deve ser esquecido e relegado a segundo plano.

A maternidade não depende mais da capacidade geracional e do sexo do outro, tornando o desejo de gerar autônomo do desejo amoroso. Tornar-se mãe não è mais um destino natural da mulher, e nem resultado de um vínculo relacional, mas sim uma escolha que tem os seus próprios tempos - mais e mais mulheres decidem ter filhos depois da afirmação profissional - graças ao sustento da ciência e do direito.

 

Entào, na pròxima vez que vocè quiser ser bem indelicado e invasivo com uma amiga ou conhecida perguntando "quando vai engravidar" ou "quando è que vocès vào começar a pensar nisso?" primeiro analise o tipo de màe que vocè è e as razòes pelas quais resolveu dar à vida a este pequeno e maravilhoso ser que identifica como filho. Se nào souber ou se for mais uma daquelas mulheres que engravidaram "porque a irmà engravidou entào pensei agora è a hora", "porque a famìlia pressionou", "porque a Igreja mandou" ou porque a camisinha estourou mas no fundo vocè nào queria...POUPE a interlocutora com seu pequenismo e và fazer terapia, cuidando, a partir de hoje, da sua pròpria vida e do grande problema da sua imaturidade psicològica.

 

O bom senso e as relaçòes harmoniosas sociais agradecem. E minhas amigas queridas tambèm :)

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