ZEITGEIST | A morte do Pai ou como nasceram os Neets

Não é uma condição invejável a das novas gerações: a transgressão - ausència de limites - parece ter sido substituída por uma solidão impressionante...

A situação dos jovens se manifesta em particular na forma como vivem a sua sexualidade e a sua dependência de tecnologia. E seu culto contemporâneo da transgressão promete uma falsa satisfação: transgredir a Lei não gera nunca realmente qualquer satisfação...


Sinais atuais

Em uma (2) news do Corriere della Sera de 07 de Novembro de 2016, com muita tristeza soube que mais de 100 mil jovens italianos, em um comportamento que jà existe no Japão desde os anos 80 onde são chamados de hikikomori, se fecham em seus quartos para o mundo de forma quase definitiva. Aì eles comem, se relacionam - apenas virtualmente - e passam seus dias. As estórias pesquisadas se assemelham muito em ambos países, mas evidenciam basicamente a falência da relação com a Escola e a ausência dos Pais, elementos codificados simbolicamente como de natureza masculina e paterna, fatores arquetipicamente constitucionais da Ordem e do Mundo Concreto.

De outro lado, observamos na sociedade civil, no mundo da política e da cultura, uma demanda insistente para o retorno do aspecto paterno, não paternalista, fique bem claro. Vemos que a própria autoridade simbólica dos pais em relação aos filhos se eclipsou: eles estão com grandes dificuldades na sua função educativa, causando conflitos geracionais atè então inexistentes. Os filhos? Sem a sua “guia”, se encontram em um território sem futuro, sem experiência, escravos do prazer, isolados em seus quartos cheios de tecnologia mas sem comunicação pessoal, desocupados e precários. Se não bastasse, os filhos destes pais herdaram uma economia enlouquecida, um débito ilimitado, uma terra contaminada, a falta de perspectivas e de horizontes vitais. Nossos filhos estão cansados e nem começaram a viver. ..

O panorama atual da populaçào NEET mundial.

Nòs vivemos em uma época dominada pela apologia do gozo imediato! Este desfrutar o máximo possível é antagônico à instituição (ao pater) porque a tarefa de cada instituição (família, escola, hospital, Estado) è o de colocar um limite, um "freio", como Lacan diria, para o prazer individual.


Contexto histórico e cultural: um Passado nem tào distante...

Na modernidade, a iniciar o processo que levou à morte do pai, de forma Simbolica e Arquetìpica claramente, talvez tenha sido o aforisma n.125 de F. Nietzsche, na obra “A gaia Ciência”, quando escreveu: Deus está morto. Oito anos depois, em 1900, tivemos outra ruptura com o aspecto paterno, desta vez com a publicação de a “Interpretação dos Sonhos” de Freud. Ele deu um golpe fatal para a presunção do Homem, pois mostrou-nos essencialmente humanos, seres nada à imagem e semelhança de um pai-criador etéreo, com pensamentos e impulsos próprios, conscientes e inconscientes. De repente, ficamos òrfàos…

Após o heliocentrismo de Copérnico, que determinou a superação da visão antropocêntrica produzida pela religião, que colocara a Terra no centro do universo, e seguindo na evolução darwiniana, Nietzsche e Freud auxiliaram a deixar o zeitgeist, psicologicamente e filosoficamente, em ebulição. Oras, se não temos um Pai celeste, se dependemos apenas da nossa própria sorte neste mundo, quem irá nos salvar? Na vida política, do dia a dia, outros fatores alimentaram esta angústia existencial: eram tempos de preparação para a Primeira Guerra Mundial, após o desmantelamento do (1) Sacro Império Romano (902-1806), que, para compreendermos a importância, seria na atualidade como termos China, Rússia e EUA em um mesmo bloco econômico. Em resumo: se hoje pensamos que estamos vivendo em uma grande crise econômica, cultural e comportamental, imaginem àquela época…

O discurso social dominante aì começou a negar as virtudes do limite, mostrando que tudo deveria ser possível! A corrente era e è "por que não?". Mas, que sentido é o limite se tudo nos empurra para uma experiência que apaga todos os limites e que, desta forma arruina nossas vidas?


Quais as causas deste mal-estar universal?


Um dos primeiros pensadores contemporâneos a trazer à tona este problema comportamental foi Eugenio Scalfari em 1998, no artigo (3) “O pai que falta à nossa sociedade”, do jornal italiano Repubblica, onde escreveu que “subjacente a esta verdadeira revolução institucional de um lado está o empoderamento da mulher e de outra a perda da transcendência, elementos essenciais da modernidade e da secularização.”

 

Como tenho pesquisado muito sobre este tema, confesso que esta afirmação de Scalfari, retomada inclusive pelo brilhante psicanalista lacaniano Massimo Recalcati sobre a evaporação do pai em seu livro “O Complexo de Telemaco”, seja um bom ponto de início para a nossa caminhada em direção à pesquisa das causas deste comportamento. Vejamos:

A inversão dos papéis homem e mulher, no início necessária para a positiva e necessária emancipação feminina, pode ser sim uma das causas desta perda de referimento. Afinal, a hierarquia familiar tinha a tarefa de transmitir a identidade, a memória histórica e a aprendizagem oral ditada por figuras bem distintas: o masculino e o feminino. Na confusão destes elementos de referimento, e na exacerbação de um feminismo de tipo nocivo voltado ao desprezo do Homem, primeiro tomou posse a cultura do rebanho, do grupo, e então assistimos os conflitos da década de 60, que depois prosseguiu para a cultura do grupo de consumo, e exaurida esta, uma cultura de solidão e individualismo emocional precário que è representada pelos grupos Neets ou hikikomori.

Teoricamente, là no início pensou-se que este indivíduo, livre das funções e os hábitos repetitivos da hierarquia, recuperaria a sua própria responsabilidade, liberdade e plenitude de auto-realização, dirigindo-se então a uma espécie de completude concreta e existencial. Mas essas aquisições ocorreram apenas em pequena parte. Esquecemos que, no próprio DNA, o ser humano tem uma tendência gregária a liberar-se da própria liberdade e refugiar-se no corpo social da massa. Nòs gostamos mesmo è de nos acomodarmos passivamente: aqui o conceito de liberdade comporta uma parcela de angústia que nos expõe ao caráter privo de garantias das nossas escolhas e atos. Assim, psicologicamente, neste contexto, estávamos muito melhor quando tínhamos um pai celestial, ( a Religião ), um pai social ( o Estado tambèm desaparecido! ), um pai político ( onde estão a as Ideologias? ) e um pai…real que nos acudia, acolhia e nos auxiliava a escolher e a viver as escolhas de forma menos angustiante...

Hoje transgressão não é mais a expressão da liberdade em frente ao peso opressivo da lei, mas tornou-se uma espécie de obrigação social. Mas, se a transgressão se torna um dever paradoxal - como acontece em nosso tempo - não é entào mais a manifestação do Desejo, mas exatamente o oposto!!! Como resultado, em vez de excitação entra em açào a tristeza e o esvaziamento do sentido da vida...


Existe um antidoto a este mal-estar existencial?


Apòs a leitura do livro de Recalcati, que absolutamente recomendo, existe uma pequena mas importante luz no fim do tùnel. Ele declara que “o pai-testemunho de que estamos à procura, pode ser,  na falta destes pais elencados, um professor, um tio, um maestro, um amigo, uma experiência de conhecimento que nos transforma. Mas este pai-guia deve ter a capacidade de mostrar a relação entre a lei e o desejo, a sua qualidade essencial. "

 

Na imagem abaixo, um dos ùltimos Pais-Guias que deixaram òrfàos seus Filhos, renunciando ao Papado no que è um grande sinal da Evaporaçào do Pai que estamos ainda assistindo...

LINKS

(1)Para terem uma idéia da sua abrangência: ihttps://it.wikipedia.org/wiki/Sacro_Romano_Impero#/media/File:HRR.gif
(2)http://www.corriere.it/cronache/16_novembre_07/centomila-chiusi-loro-stanze-neet-3792683c-a455-11e6-9261-ffaafc24ed7d.shtml
(3)http://ricerca.repubblica.it/repubblica/archivio/repubblica/1998/12/27/il-padre-che-manca-alla-nostra-societa.html

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