zeitgeist | Do que você tem medo ?

Virtualizamos nosso medo, mas ele continua atrás das nossas portas com outros nomes...

Aqui no Sul da França, o turismo de verão deste ano sofreu uma queda de 6%, depois do aumento de 20% do ano passado! Resultado, segundo muitos analistas, em função do perigo do terrorismo. E eu concordo: não teria vindo para cá, pois eu também tive medo. Minha pele arrepiava com qualquer sirene de ambulância que passava na rua porque no fundo eu pensava "algo aconteceu... Mais um terrorista igual ao de Nice entrou em ação." E, em todas as vezes, foi apenas mais um atendimento de emergência.

Duas imagens que falam por si: a polícia municipal em Copacabana contendo um arrastão e os policiais franceses em Marseille tentando afastar a ameaça de um ataque terrorista com a sua presença. De um lado, o medo de ser assaltado e de outro, de ser exploso. Tempos de MEDO, em todas as altitudes do planeta!

Mas o mood é esse, graças ao fundamentalismo nosso de cada dia: acho que se eu morasse no Brasil talvez tivesse medo de ser assaltada (ou morta como infelizmente aconteceu em Porto Alegre neste mês), se eu fosse uma mulher pelas ruas de Bangladesh teria medo de ser estuprada por um bando de homens, se eu fosse um milionário talvez não dormisse de noite com medo de ter as minhas contas reveladas no próximo Panamá Papers. Cada um de nòs conhece seus medos...
O fato é que medo todo mundo tem, porque é o resultado de nossa complexidade cerebral. Isso mesmo. Nosso órgão mais importante, incessante produtor de esquemas emotivos cognitivos, se funda sobre um alerta consciente e insconsciente: a projeção ambivalente de "medo e desejo", que nos primórdios (mas ainda atual) se localizava no medo dos predadores e inimigos e no desejo da presa e do partner sexual. É uma ambivalência ancestral que não mudou muito nestes milênios de evolução, como verificamos no "vicio lúdico" dos jogadores da Bolsa até as maquininhas de loteria dos bares, por exemplo.
Assim, para começar a compreender nossas respostas atuais à esta problemática - como o case assustador deste Agosto, da neurose coletiva causada pelo terrorismo instalada em Juan Les Pins (link aqui), por exemplo - indico três clássicos ocidentais em um crescente histórico: " O Ano Mil" de Henri Focillon com um interessante capítulo sobre os medos medievais, "O medo no Ocidente" de Jean Delumeau e por fim "Medo" de Joanna Bourke.
Eles nos recordam que este forte sentimento não é característico da contemporaneidade e que foi muito mais exacerbado no passado. Basta lembrarmos do "medo do fim do mundo" no qual os Maias sacrificavam pessoas, no "medo da punição divina" no qual Abraão quase sacrificou seu filho Isaac, passando pelo secularismo medieval quando no ano 1000 centenas de pessoas se suicidaram temendo o fim das eras. Ou o que dizer da época terrível do início do Renascimento em sincronia com a terrível Peste Negra, a Guerra dos Cem Anos e as invasões que levaram ao fim de uma inteira nação como a queda de Constantinopla? Se hoje tememos o fim dos tempos, o que pensar de quem realmente viveu ele na pele centenas de anos atrás?
Virtualizamos um pouco o nosso medo, e ele continua atrás das nossas portas com outros nomes... Se lá atrás o medo do "feminino" ou dos poderes "curativos" das meninas queimava mulheres como bruxas, hoje podemos tomar a liberdade de chamar de feminicídio, stalking, mobbing ou estupro de massa. A nossa peste negra são o câncer e a aids, e mais recentemente o ebola; e o fim do mundo pode ser representado amanhã por um apagão elétrico com o cancelamento de seus dados bancários por exemplo.
Esta poderosa força arquetipica tem o poder de evoluir com os tempos, através de outros nomes como "global warming", a "islamização do mundo" e etc, amplificadas pelas mídias, hoje muito mais invasiva e onipresente que em outras épocas. Talvez seja isto que nos amplifique e nos deixe tão vulneráveis ao Medo! E aqui meu conselho é o de fazer um teste: não ligue a TV nem acesse seu feed no Facebook por uma semana e você vai ver como provavelmente a sua "fé na Humanidade" vai voltar aos níveis normais... Risos.
O medo faz parte do "ser humano" e não podemos nega-lo nem evitá-lo, existem situações reais onde ele é palpável, e então basta acolhermos a sua dose diária que serve para a nossa própria proteção e diria, sobretudo, de evitarmos expor-nos a situações de risco conhecidas (a clássica sair sozinha à noite em locais perigosos, etc), aos aspectos midiáticos massivos de sua difusão, que sabemos já há muito tempo servir muito mais ao nosso "controle como massa" pelos sistemas políticos de plantão do que por outros motivos... Afinal, ter uma sociedade que teme, prisioneira de seus medos e projeções, é muito mais fácil de controlar, não é mesmo?

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