Como fugir do Brasil

soluções à disposição para o descontentamento com a própria vida no país.

Maurizio Nannuci's neon tubes, 2003.
Maurizio Nannuci's neon tubes, 2003.

Um ano sabático, um mês de intercâmbio, uma mudança radical de vida ou apenas um maior entendimento de seu lugar no mundo são as soluções à disposição para o descontentamento com a própria vida no país.

São tempos difíceis para meus amigos no Brasil e leio sem cessar, seja na mídia ou na rede social de cada um, uma vontade imensa de mudar de país, para quem sabe, ser mais feliz. Bem, eu fiz o mesmo, por outros motivos, e então pela minha experiência, mudar de localização geográfica ajudou bastante e, no meu caso, foi fundamental para a minha realização pessoal e profissional. Do interior do Rio Grande do Sul fui para São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre passando pelos EUA e Peru antes de chegar aqui na Europa, e hoje vivo entre Milano e Antibes (Cote d’Azur).

Eu saì do Brasil em um momento em que ele estava no auge, sem nenhum remorso ou saudades, pois ele nào era para mim desde sempre. Desde adolescente sofria muito com o meu entorno, jà que nasci em Bento Gonçalves, uma tìpica cidade do interior com vocação de riqueza apenas material, onde a cultura era minimamente oferecida e atè hoje è assim: podem atè ter o maior PIB do estado, mas faltava tudo aquilo que a minha alma precisava para viver, como um bom cinema, um teatro, uma biblioteca, uma livraria decente… Para este tipo de oportunidade, atè hoje os jovens precisam deslocar-se atè a capital, e então imagine como era hà 20, 30 anos atrás…Uma cidade pequena, em todos os sentidos. Mas foi ótimo ter tido esta experiência traumática porque foi o desconforto de aì viver que me levou para o mundo em busca de outros valores para mim mais fundamentais: então morei a trabalho em São Paulo, Rio de Janeiro, EUA e Peru, atè chegar na minha cidade do coração, Porto Alegre, meu trampolim para o outro lado do mundo.

Assim, como creio ter alguma experiência para compartilhar sobre mudanças de cidade - e de vida - acredito que para realizar sem sofrimentos uma mudança radical como esta, è preciso antes de mais nada saber exatamente quem você è e quem você quer ser. E, sobretudo, ter em mente três palavras: planejamento, desapego e resiliência.

Este post pretende, de alguma forma, auxiliar as pessoas que estão pensando em tomar esta atitude mas nào sabem se devem, e, se devem, por onde começar. Assim, responda sinceramente:

#1: A sua insatisfação è com o país em geral ou com algum problema específico da sua vida?
Nem todo mundo deve mudar de local, 90% das pessoas precisam mesmo è mudar o seu comportamento e a forma como enxergam o mundo ao seu redor. Sem óculos cor de rosa e sem forte pessimismo: a realidade como ela è. E a dica aqui è a seguinte: invista uma parte do seu dinheiro em terapia, com um sério analista ao qual você confia e se sente à vontade. Peça indicação aos amigos mais próximos e nào à internet e inicie um percurso de questionamentos sobre quem você è, se ainda nào sabe exatamente…e o que você realmente quer ser na vida. Porque pode ser que tudo esteja ao alcance da sua mào, neste paìs mesmo, e você nào esteja vendo. Eu sò criei coragem para largar a minha vida e fazer downshifting na Europa depois de um longo percurso de análise, onde esclareci todos os meus conteúdos mentais e percebi que um ano sabático seria a decisão mais sábia e construtiva para a minha vida, naquele momento específico. Redescobri um sonho de adolescente que estava perdido na minha caixa de responsabilidades e fatos estressantes da minha vida de adulta: o de viajar e estudar no exterior. Foi para perseguir isso que decidi sair do Brasil.

#2 Qual è e quanto tempo dura o seu objetivo?
Resolvida a questão “de onde vim e para onde vou” da fase acima, è importante definir o que você quer fazer e quanto tempo este desejo vai durar. Explico: quando eu decidi viajar, nào pensei em vir e “ver no que dava”. Este pensamento mágico nunca esteve na minha cabeça pragmática, e então eu decidi que o objetivo era um Master na minha área, junto de um estágio e, se meus estudos e currículo permitissem, conseguir um trabalho relativo. Minha mente estava aberta: poderia voltar ao Brasil depois desta experiència ou ficar: queria ter todas as possibilidades, mas devia estar preparada para elas, certo? Com esta premessa fui em busca das melhores universidades para estrangeiros, que idiomas seriam necessários, como era o processo de seleção, quanto custaria o pacote completo (curso, hospedagem e extras) e quanto tempo seria. Descobri que o curso, mais o estágio e uns três meses de viagens pela Europa caso nào conseguisse trabalho (você sempre tem que ter um plano B) totalizariam 12 meses. Fiz as contas, sondei o diretor da empresa onde trabalhava para ver se podia interromper o contrato de trabalho por um ano (seria então um verdadeiro ano sàbatico) e quando ele disse sim, vi que tudo era possível. Neste momento dei entrada no meu processo de início da odisséia. Bom lembrar aqui que è extremamente importante delinear o início e fim deste processo, primeiro de tudo para nào sofrer de ansiedade e depois porque existem muitos fatores envolvidos e você nào pode perder tempo.

#3  Você vive um dia após o outro ou gosta de planejar?
Odisséia iniciada, entre a decisão e a viagem passaram-se 1 ano e meio. Pois muitas coisas devem ser programadas de forma muito séria, caso você nào seja sustentado pelos pais como era meu caso, e uma delas è: como você vai se manter nesta experiência? Quem vai pagar seu aluguel, sua comida, seus estudos e eventuais gastos com viagens dentro da viagem e a sua saúde? Quando vim, eu trabalhava em uma grande empresa, ganhava muito bem, tinha um carro e um apartamento e sabia que eu deveria planejar esta mudança financeiramente sem causar problemas caso voltasse. Então, na ordem, eu fiz uma poupança mensal, investindo 50% do que eu ganhava em um fundo de rendimento que eu poderia sacar e transformar em euros no momento que quisesse; planejei a venda do meu carro que depois se transformou no pagamento do meu master junto de metade do aluguel do ano e, por fim, aluguei meu apartamento. Me mudei com todas as minhas lembranças para a casa dos meus pais no interior e là fiquei atè voar. Se você nào pode contar com seus pais ou família, existem empresas que alugam espaços (containers) onde você pode deixar suas coisas por um período e o mesmo vale para a sua moradia temporária.

#4: Você tem condições mentais e psicológicas de ser “um ninguém” em terras estranhas?
Esqueça que você è filho do Dr.Josè, que mora naquela casa amarela da subida da avenida central que tem com um cão que late quando o carteiro, Paulo, passa. Você vai chegar em um país onde ninguém sabe e está interessado no seu pedigree e se você foi a debutante destaque de 1992. Você serà, por muito tempo, mais um na multidão. Você terá que reconquistar a sua identidade, e nem todo mundo quer dar-se a este trabalho. E’ uma “síndrome” muito comum para quem nasceu no interior, ou tem algum sobrenome famoso (nào precisa ser por boas razòes, risos) e uma forma de ostentação do próprio “eu” atravès do “o que possuo”. Eu jà nào tinha este “problema” hà alguns bons anos, e aliás, nunca gostei de ser conhecida como a filha da fulana e do beltrano porque sempre quis ter a minha própria identidade, mas conheço muita gente que nào saberia lidar com esta perda de referenciais. Se você se sente assim, volte para a dica da #1 e faça terapia, funciona.

#5  Você consegue viver com muito menos em uma casa com pessoas desconhecidas?
Quando vim realizar meu ano sabático, o desapego foi fundamental. Das “coisas”, das “pessoas” mas sobretudo, dos meus hábitos de morar e compartilhar, jà bem cristalizados. Eu, que morava em um duplex em uma zona nobre de Porto Alegre, com o carro do ano na garagem, enfrentei (quem me acompanhou na transição sabe que bem feliz) uma mudança de casa sem precedentes: morava com outras 3 meninas italianas, dividindo cozinha e banheiro, e, para o horror das elites brasileiras, limpava a casa - banheiro e quarto das outras meninas incluso - em sistema de rodízio. Adorava, pois foi aí neste percurso inèdito que conheci os verdadeiros códigos culturais do país que havia escolhido pertencer naquele período. Aprendi com elas a cozinhar “alla moda italiana”, a falar o italiano do dia-dia, a comportar-me em público (italianos do Norte são bem menos efusivos do que brasileiros) mas, sobretudo, estava amparada e acolhida por pessoas locais, que me levaram para dentro de suas famílias. Perdi todas as minhas vergonhas e achaques pudicos com esta troca e aprendi, verdadeiramente, a compartilhar, da comida, atè tristezas e problemas de saúde. A dica aqui è a seguinte: mesmo que você tenha muita grana para investir em um aluguel “sò para você”, nào faça isso, pois além de nào ter as alegrias de uma troca local diária, irá viver em um grande “buraco” de solitude em um país estranho por um bom tempo. Pode atè ser um belo duplex em Via Solferino (zona trendy de Brera aqui em Milano) mas vai ser pura perda de tempo. Compartilhe-se.

Sobre seu closet: eu tambèm tinha um, lindo, todo espelhado, onde cada sapato tinha seu lugar e cada roupa era sistematizada por cor. Bem, ele nào veio junto contigo e então desapeguei: 80% das peças eu doei para amigas e família, outras eu guardei na casa de minha màe e algumas poucas eu pude trazer: foram aquelas que eu realmente usei. Vivi 365 dias sem comprar uma roupa, usando apenas as que havia trazido nas minhas duas malas e nào morri. A dica aqui è a seguinte: você ainda nào sabe se vai passar um mês, um ano ou toda a sua vida nesta viagem, certo? Então passe as suas roupas pela seguinte classificação: 1) nào posso dar para ninguém, são peças do coração 2) atè posso dar para alguém, mas quando voltar 3) fazem alguns anos que nào uso, è hora de doar. Faça isso uma vez por semana, atè a sua viagem. Coloque o que nào serve para a viagem em caixas identificadas com naftalina e deixe no sòtào de algum parente ou amigo. O resto, faça um brechó que pode atè servir para financiar uma parte da sua viagem e o que sobrar leve consigo e use.

Estas são as pequenas dicas que me ajudaram muito a deixar o Brasil e vir morar na Europa, e acrescento outros comportamentos importantes que me fizeram ter sucesso aqui do outro lado do atlântico: abertura mental, nào ter preconceitos de nenhuma forma (sexo, religião, cor, origem, etc..), curiosidade, vontade de aprender outras culturas e usanças, disponibilidade em fazer novas amizades, pro-atividade e por fim, observação das regras e leis dos países onde moro. Ah, e apreço genuìno pelas novas descobertas, lembrando de nunca comentar "no Brasil isso è melhor". Geralmente, nào è.

A resiliência tambèm è fundamental: significa que você nào pode voltar no primeiro grande e grosso problema que enfrentar por aqui - e serão muitos. Você estará sozinho, contando apenas com os próprios recursos pessoais e toda a sua bagagem de vida, e então deve observar onde está o erro, corrigir a rota em tempo hábil e tentar de novo, atè conseguir. Seja honesto consigo mesmo nestas horas e, se nào conseguir mesmo, e sentir que pode piorar, ou que a sua felicidade realmente nào era aqui, tudo bem, volte. Volte assim que puder pois isso nào è uma derrota nem uma vergonha…

 

Ao menos você tentou ;)

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