O novo Medievo feminino

Cansei. Todos os dias notìcias sobre feminicìdio e desrespeito aos direitos civis das mulheres. Chegou a hora de vermos realmente o que està acontecendo dentro de um contexto macro, onde as religiòes tem sim uma grande parcela de culpa.

Aqui na Europa a bola da vez è a relaçào entre homens e mulheres que observam a religiào muçulmana. Complicada e feita de tantas nuances, sendo um conflito que vai longe no tempo, difìcil de entender a quem vive no Ocidente como nòs.  Mas fato està que a religiào ocupa o nò central desta questào. E de todas as demais que estamos vendo diariamente. Explico:

 

Na religiào muçulmana o Corano vem utilizado como prova de que a mulher nào vem discriminada. Sim, è verdade que Maomè afirmou que homens e mulheres devem caminhar juntos sobre a mesma estrada. Mas teoriza outras situaçòes onde a mulher aflora como personalidade submissa. O livro sagrado deles justifica, entre outras coisas absurdas, a imposiçào do casamento às esposas ainda crianças. Para nòs, seria considerado pedofilia, e pode nào acontecer tanto quento eles gostariam, mas no fundo è culturalmente inquietante que seja considerado normal nos tempos atuais.

 

Para grande parte dos muçulmanos, sua mulher è uma espècie de "objeto de constante tentaçào", e entào ele se sente no dever - precisando que neste contexto sua mulher è um "bem privado" - de ordenar que ela se cubra dos pès à cabeça com o ùnico objetivo de subtrair seu fìsico ao olhar de um outro homem, resultando na sua completa submissào. Adicione que ela nào pode dirigir seu olhar nem fala à outros homens se estiver desacompanhada e, voilà, è feita a vossa vontade assim no cèu como na terra.

 

Triste, nào? Pois è. A opressào da mulher nestes casos è do tipo ideològico. Mas, e no Ocidente, predominantemente cristào, onde a opressào è do tipo econòmico? O que è pior? No nosso belo sistema, fomos usadas durante tanto tempo como "objeto de tentaçào" simplesmente para fazer dinheiro. Ou para dar prazer ao homem, religioso ou nào, atençào.  Assim, nào somos piores do que as imposiçòes da cultura religiosa muçulmana. Somos machistas como eles e a diferença è que eles sào mais moralistas, mais formais e menos ligados ao aspecto material. Lembremos que o casamento civil nasce no Ocidente apenas para regular a descendència financeira, nenhum  sentimentalismo amoroso estava na pauta.

Mas, que tal contextualizarmos dentro de um àmbito maior, ou seja, mundial e històrico? Serà que existe mesmo uma diferença gigante na forma como hebreus e cristàos vèem a mulher?

Para mim a religiào deve ser uma experiència individual, pois se resta o ùnico referente social, polìtico e cultural iremos ao encontro de uma ignorància sem retorno. O antìdoto ao super poder de uma religiào (qualquer que seja) è imunizar a sociedade com cultura, ciència e educaçào. E quem quiser rezar que reze.

A civilizaçào islàmica nasce da mesma àrvore judaica que - sèculos antes - tinha dado vida à heresia cristà. A primeira conotaçào desfavoràvel para a mulher vem na verdade do Cristianismo, quando em Genese lemos que " com a costela que havia tirado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher e a levou até ele". Para os crentes, o homem veio do nada, e a mulher è apenas a sua sombra. Uma fraqueza que vem depois reforçada com o fato de que è Eva, a mulher, que se deixa seduzir pela serpente, e seduz o homem para que ambos sejam expulsos do Paraìso. Ato rebelde que atè hoje pesa nas nossas vidas.

 

E, nào bastando colocar-lhe a culpa imensa de sair do local paradisìaco, este deus obriga o homem a trabalhar para ganhar o pào e à mulher, declara: “Multiplicarei grandemente o seu sofrimento na gravidez; com sofrimento você dará à luz filhos. Seu desejo será para o seu marido, e ele a dominará”. Pronto, era o que precisàvamos para sermos subjugadas atè hoje.

 

Estes versetos, na sua simplicidade, justificaram toda a ferocidade das sociedade primitivas mas tambèm forneceram elementos de intuiçào profunda para a nossa liberaçào a partir de Freud. Muitos sèculos precisaram passar para que começàssemos a nos liberar desta verdadeira "maldiçào" imposta pela religiào monoteìsta - masculina e entào patriarcal - num processo que nào è fàcil, mas que deve ser levado adiante.

Então o Senhor Deus fez o homem cair em profundo sono e, enquanto este dormia, tirou-lhe uma das costelas, fechando o lugar com carne.
Com a costela que havia tirado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher e a trouxe a ele.
Disse então o homem: "Esta, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada mulher, porque do homem foi tirada".
Gênesis 2:21-23
Então o Senhor Deus fez o homem cair em profundo sono e, enquanto este dormia, tirou-lhe uma das costelas, fechando o lugar com carne.
Com a costela que havia tirado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher e a trouxe a ele.
Disse então o homem: "Esta, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada mulher, porque do homem foi tirada".
Gênesis 2:21-23
Então o Senhor Deus fez o homem cair em profundo sono e, enquanto este dormia, tirou-lhe uma das costelas, fechando o lugar com carne.
Com a costela que havia tirado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher e a trouxe a ele.
Disse então o homem: "Esta, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada mulher, porque do homem foi tirada".
Gênesis 2:21-23

Foi com Santo Agostino que o Cristianismo atingiu o àpice da misoginia. A conversào è vista por ele como liberaçào do desejo, das tentaçòes da carne e aqui o "estado de graça" pode ser alcançado somente exorcizando (castrando emocionalmente e fisicamente muitas vezes) a mulher.

Mosaico retratando Teodora, prostituta e mulher de Giustiniano (527- 565 a.d.), imperador que por primeiro na Història legislou a favor das mulheres.
Mosaico retratando Teodora, prostituta e mulher de Giustiniano (527- 565 a.d.), imperador que por primeiro na Història legislou a favor das mulheres.

Um pouco de Història: as Religiòes Monoteìstas e a Mulher

As grande religiòes monoteìstas geralmente fazem um concurso para ver quem è mais irreverente e desprezìvel no confronto com o feminino: na grande parte delas, quando lemos seus livros sagrados fica implìcito que "as mulheres dvem ser fecundadas para transmitir às geraçòes futuras a fè do seu tempo. Este è o papel principal queo criador indicou" como disse o Talmud ou que moralmente "vale mais a malìcia do homem que a bondade de uma mulher" em Eccl. 42: 14. Resumindo, do mesmo livro: a "mulher è mais amarga do que a morte". Fica complicado viver assim, nè?

 

Claro que a evoluçào social começou a atenuar as leis de Moisès e o Novo Testamento entào começou a mostrar costumes mais evoluìdos, e Jesus aqui deu seu recado envolvendo-se publicamente com a Samaritana e absolvendo a dona adùltera, evitando a sua lapidaçào - atitude ainda em voga nos Dubais da vida, tào fashionistas e amiguinhos do Ocidente. Claro que aqui o perdào ainda è mais fàcil ao homem do que a ela - certos hàbitos sào difìceis de eliminar nào è mesmo? Observamos um fato raramente evidenciado: quando a Bìblia quer humilhar alguèm o define "filho da mulher" Giobbe 15: 14 mas no Evangelho, Jesus è sempre "filho do homem" Luca 6: 5.

 

Prefiro pensar que è porque nào tivemos nenhuma escritora das Escrituras. Se elas pudessem ter colaborado com a Bìblia em primeira pessoa, a història seria bem diferente. Tenho certeza!

Obra prima de Caravaggio, sua Judith, heroìna do povo hebreu, decapitando Holofernes aqui representa o que foi descrito no Livro de Judite.
Obra prima de Caravaggio, sua Judith, heroìna do povo hebreu, decapitando Holofernes aqui representa o que foi descrito no Livro de Judite.

Misoginia & Mitologia

O judeu-cristianismo nào tem todavia o monopòlio do anti-feminismo, bom lembrar. Tirando fora as religiòes sirianas antigas, onde o padre se castrava em honra das divindades femininas, eram tempos onde do Egito atè a Grècia, em China e no Mèxico, na Pèrsia e no Tibet, as mitologias acusavam as mulheres do primeiro pecado. Sempre. Sem exceçào.

 

No maniqueìsmo, por exemplo, religiào extinta hà seculos e criada por Mani, existiam dois princìpios imutàveis: o bom que gerava a ordem e a luz e o outro ruim, que gerava o caos e a noite. Adivinhem onde estavam o masculino e o feminino? Acertaram! O primeiro tinha como sìmbolo o Sol, de significado positivo e o outro a Lua, para eles malèfico. Curiosamente, esta religiào atraiu grandes personalidades, e uma delas foi Santo Agostino, depois Pai da Igreja, que quando jovem, antes de converter-se ao Cristianismo, foi maniqueìsta. E, hà controvèrsias, mas um grande machista...

Para mim, a misoginia das religiòes tem uma origem comum: o subconsciente masculino. Para exonerar deus do mal e da morte - conceitos incompatíveis com a divindade, que tem uma essência sem culpa nenhuma, è perfeita - ele carrega no seu companheiro de pecado original: "Não fui eu, foi ela", diz Adào. A culpa, è sempre nossa. Suspiros.

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