Fast Is Finished 

*Este statement, que move o que chamamos de consumo consciente e traz estórias de experiências em companhia real e nào virtual, è o mood atual do Zeitgeist, que pode ser traduzido por “a velocidade acabou”. Foi tema de uma palestra na Area51 em parceria com a Postal INC, no inicio do mês de Novembro em Porto Alegre.

 

O homem nào foi programado para ser veloz. Quando inventamos a roda, ou melhor, seu asse, hà mais de 4 mil anos nào foi para nos transportarmos mais velozmente e sim, para solucionarmos a falta de forças para puxarmos o arado com animais. Inventamos as demais máquinas depois pois somos, de fato, um tanto preguiçosos! Tecnicamente, somos o ser mais lento da Natureza…uma formiga, em comparação com nosso corpo, è muito mais veloz, carregando proporcionalmente muito mais peso!

Mas, onde nasce esta nossa vontade de sermos velozes em tudo - uma geração multitasking com status online sempre “at work” - visto que desde os gregos atè o inìcio do Renascimento italiano, nunca pensaram nisso? Aristoteles dizia nos seus escritos que a tecnologia existente ao seu tempo era jà suficiente para melhorar a qualidade da vida quotidiana e exortava as pessoas a dedicar-se ao progresso do espirito. E assim obedecemos atè o final do Medievo, onde levamos ao máximo nível a filosofia, as artes, a dramaturgia, a poesia, a música e tantas outras artes. Em um ostracismo total por tudo aquilo que hoje poderíamos considerar tecnologia, e então, velocidade.
 
O mito da velocidade veio forte a partir do Renascimento, desembocando no Iluminismo e um dos “culpados” foi sem dúvida Francis Bacon que com seu livro Novum Organum inclusive recusou o ensino de Aristoteles afirmando que “tudo que se podia descobrir para o espirito tinha sido descoberto, agora era hora de pensar em melhorar a vida pratica do homem”. Frase que foi seguida ao pè da letra pelos participantes da Revolução Industrial inglesa e que depois inspiraram Ford e Taylor no inicio do século passado, lembram? Eles criaram a hoje famigerada mas à época útil fórmula de eficiência, junto da cadeia de montagem, aquela ironizada por Chaplin no seu Tempos Modernos, se lembrarmos.

Como a nossa mente tranquila reage à isso tudo, que è muito novo inclusive para o nosso código cultural e genético? Muitos psicanalistas afirmam que è o desejo de emularmos as máquinas velozes - criadas por nòs mesmos, à diferença do cérebro que è uma máquina lenta - que pode ser uma das tantas causas de grande angústia e frustração contemporânea. Além disso, a prevalência do pensamento rápido, a partir daquilo que exprimimos atravès do uso dos instrumentos digitais, pode comportar soluções erradas, danos à educação, e ao fim, ao viver civil. Assim, de acordo com muitos filósofos, psicólogos, antropólogos da atualidade que estudam o nosso comportamento e com os quais temos tido contato, è unânime a opinião que a redescoberta da lentidão pode ser uma boa terapia contra os efeitos do stress digital, onde tudo vem comunicado em tempo record, atravès de emails, WhatsApp, sms, twitter, social network contemporaneamente. Você tambèm tem a sensação de que estamos sendo “bombardeados” por informações textuais, visuais e sonoras sem querer? Isso è o mundo fast! Para pensar, precisamos de tempo, com espaços vazios e silêncio, e, para criar, de ócio criativo, jà dizia meu maestro Domenico de Masi.

Mas quem pode gozar do luxo da lentidão num mundo onde todos parecem fadados a correr de cà para là em um baile continuo? Quase ninguém. Porém, os mecanismos cerebrais que regulam os nossos comportamentos, no seu macro è uma máquina lenta, que tem necessidade de seus tempos e de uma seqüência nas suas ações. Nòs, ao invés, fazemos o contrário - e nos orgulhamos por sermos multitasking, nào è mesmo? - e assim vivemos atualmente no que chamamos de “pesadelo da lentidão”, que associamos à perda de tempo e, pior ainda, a algum típico de defeito seja físico ou mental. Justamente por ter-se tornado uma mercadoria rara, a lentidão nos últimos anos tem batido às nossas portas de outras formas, em livros, movimentos artísticos, na gastronomia, nos debates, em encontros e atè em resultados da bolsa de valores, como uma forma de “aviso”. Quem abrir esta brecha poderá viver mais e melhor, e de quebra, tornar-se parte de um movimento mundial que está mudando paradigmas seculares…

Aqui na Italia por exemplo, todos os dias 13 de Maio comemoramos o dia mundial da lentezza (lentidão) e è muito ativa a associação “Vivere con lentezza” (www.vivereconlentezza.it) que promove este lifestyle em contraposição com os ritmos frenéticos da nossa agenda quotidiana. Criado por um alto executivo italiano, Bruno Contigiani, na verdade um personagem singular: estudou em um dos templos da velocidade em versão acadêmica (a prestigiosa Universidade Bocconi), trabalhou em empresas onde certamente a lentidão nào era prevista (da Ibm à Telecom), e, bem cansado desta pressa sem fim, virou o jogo e resolveu como nova missão de vida difundir o prazer do “tempo perdido”.

Assim como esta associação, existe um mundo inteiro hoje dedicado ao movimento da lentidão, que vai da Moda ao Design, passando claro pela Gastronomia e quem diria, no esporte! Temos nas academias européias o sucesso do “Slow fitness”: un nuovo modo de atividade onde corpo e mente trabalham juntos para o bem-estar, num mix de Pilates,Yoga e stretching; na leitura, Diana la Counte, criou um clube de leitura virtual lenta, o slow reading, em Califórnia, que discute a sua atividade via Facebook e jà tem hoje milhares de seguidores. Um dos resultados segundo ela, è o de estimular a empatia, mas sobretudo, reduzir o stress.

Na gastronomia conhecemos jà muito bem no Brasil o Slow Food, de nosso amado piemontês Carlin, o Carlo Petrini. Em 1986 ele fundou a Associação Gastronômica ArciGola e três anos depois em Paris lançou o Slow Food, movimento internacional que nasceu objetivamente como resistência ao fast food. Falando nisso, todos vimos este ano as noticias de que o grande colosso do Big Mac tem perdido milhões de consumidores pelo mundo, assim como seu faturamento, justamente por manter seu conceito de velocidade na alimentação, aliado a lanches de qualidade nutricional duvidosa, como afirmou Jamie Oliver recentemente em processo polêmico e Morgan Spurlock em seu filme Super Size Me de 2004. Na moda, em busca de um ritmo mais natural e menos consumista, os sinais aumentam dia a dia, como estamos observando nas novas estratégias de H&M, Zara e das grandes players francesas e italianas, com Hermes na proa. No Design então, nem se fala: hà mais de 4 Fuorisalones o conceito de base são os makers, materiais sustentáveis e reaproveitamento de matèria-prima e objetos, em uma tríade que sustenta o movimento de busca de lentidão neste setor.

E enfim, para saber pessoalmente se você pertence ao movimento slow ou fast, pense na refeição que você acabou de fazer: foi por prazer ou por necessidade? A última roupa que comprou, foi porquê estava na promoção e era “baratinha” ou foi porquê você realmente precisava daquela peça específica? Resumidamente, tudo aquilo que você compra por impulso ou por manipulação publicitária, pertence ao mundo fast, e tudo aquilo que te preenche com prazer e interessa aos teus sentidos, e de quebra, faz bem ao mundo social ou ecologicamente, faz parte do movimento slow.

Para saber mais:

Associaçào: “Vivere con lentezza” (www.vivereconlentezza.it)

Site: www.slowfood.it

Livro: “Elogio da Lentidão” de Lamberto Maffei, ex diretor do Instituto de Neuroscienza do Cnr.

Blog: www.trashisfortossers.com

Musica: www.welovegreen.fr

Livro: “O Ócio Criativo” de Domenico De Masi.

Livro: “Andar a pè. Filosofia do caminhar” de Frédéric Gros, professor de Filosofia na Universidade de Paris XII.

Acima, imagens do momento de Compartilhamento de Conhecimento na Area51 a convite de Postal Inc.


Sobre Area51: Um ambiente multicultural que reúne iniciativas ligadas a educação, empreendedorismo, entretenimento e tecnologia.

Sobre Postal Inc: E’ uma empresa de pesquisa e análise do comportamento do consumidor que tem como objetivo orientar as marcas e empresas no desenvolvimento, lançamento ou reposicionamento de produtos e serviços. Trabalhamos com pesquisa qualitativa, buscando um novo olhar e compreensão sobre a sociedade e os grupos urbanos, identificando tendências socioculturais e comportamentais, utilizando a Etnografia como principal metodologia.

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